Gosto do título que escolhi para este meu testemunho, por me parecer o mais adequado para exprimir o que, a meus olhos, melhor define o perfil pastoral de D. João Pereira Venâncio. De entre muitos caminhos por ele abertos, há quatro que me mereceram e continuam a merecer a minha particular atenção.
1.O caminho do acolhimento, da simplicidade e da amizade
Como eu, tantos o testemunharam e se deixaram tocar por ele. A sua lhaneza de trato, aliada à sua profunda humildade e sentida amizade, deixaram marcas em quantos tiveram a dita de contactar de perto com o Senhor D. João Pereira Venâncio. Julgo mesmo que foi este traço da sua personalidade que fez exclamar a peregrinos estrangeiros, de passagem por Fátima, já depois da sua morte: «era um santo de altar»!
2. O caminho da interioridade, fruto da sua profunda união com Deus e da sua extraordinária devoção a Nossa Senhora
As suas homilias, as suas cartas pastorais e pessoais (só eu sou detentor de 52), as suas atitudes orantes não deixavam dúvidas a ninguém. Era um homem possuído de Deus e que comunicava Deus. Absorvia-o a ideia e o desejo de que os seus padres se aliassem em grupos de oração, para uma maior vivência do seu ministério. De Roma, onde participava no Concílio Vaticano II, pedia-me em carta enviada para Paris: «Procura encontrar-te com o fundador da «Aliança Sacerdotal», o Rev. P. Heris O.P., e conhecer esta obra, que tem por fim insuflar espírito de amor em todo o clero secular ou «regular» e em todas as almas, que os leve a apaixonar-se por Deus, Amor Infinito». De passagem por Paris, vindo de Roma, terminada a primeira sessão do Concílio, pediu-me para o acompanhar ao «Sacré Coeur», aonde foi somente para adorar o Santíssimo Sacramento ali permanentemente exposto. Não foi fácil arrancá-lo da oração profunda em que mergulhava! Quis ir também à «Tour Eiffel». Sabeis para quê? Para, do alto daquela torre, donde se divisa a imensa cidade de Paris, rezar pelo Bispo da Diocese de Paris o Rosário a Nossa Senhora: «Se a minha Diocese, que é tão pequenina, me traz tanta responsabilidade pela salvação das almas, o que não sentirá o Bispo desta cidade! Vamos rezar por ele». Mais perto de nós, não descansou enquanto não introduziu no Santuário de Fátima o Sagrado «Laus Perenne». Acompanhei-o nessa noite de 1 de Janeiro de 1960, no acto inaugural. Como era grande a sua alegria! E quantas vezes, no Santuário de Fátima, o vimos, de joelhos por terra, no meio dos peregrinos anónimos, de terço na mão!
3. O caminho de missionário da Mensagem de Fátima
Nossa Senhora encontrou no Senhor D. João Venâncio o arauto escolhido para fazer chegar a Sua Mensagem aos quatro cantos da Terra. Levou-a a mais de 30 países dos cinco continentes. Levou-a mesmo ao coração do Concílio Vaticano II, aos mais de dois mil Padres Conciliares. Trouxe a Fátima o Papa Paulo VI, abrindo deste modo caminho à vinda a Fátima dos Papas João Paulo II e Bento XVI. Já do Papa João XXIII dizia na sua carta de 11 de Junho de 1963: «parto para Roma para as últimas homenagens ao grande Pontífice, tão amigo de Fátima e tão bom. Depois espero pelo novo Sumo Pontífice, a quem espero homenagear em nome da Diocese e de todos os seus padres. A todos terei presentes na 1ª Bênção!». E, de regresso à sua Diocese, passando por Paris, onde eu prosseguia os meus estudos, a uma pergunta minha sobre o que pensaria de Fátima o novo Papa, respondeu: «a última pessoa com quem estive em Roma, antes de partir para o aeroporto, foi com o novo Papa, Paulo VI, que me disse: «Fátima, que responsabilidade para a Igreja e para o mundo».
4. O caminho do apostolado em meio escolar
Foi este um dos caminhos que mereceram ao Senhor D. João uma particular atenção. Olhando o panorama religioso da sua Diocese, teve estes desabafos comigo, em Outubro de1962: «a igreja da Marinha Grande está vazia, não só pela ausência da classe operária, mas também da juventude. Vamos levar a Igreja ao coração da Vila, por meio de um colégio, cujo alvará já adquiri». E, embalado por este zelo pastoral, mete ombros á construção, na Marinha Grande, do Externato Dr. Afonso Lopes Vieira, que adquiriu grande prestígio naquele meio, com o seu projecto cultural e cristão. Quanto ao colégio diocesano em Fátima, assim o justificou: «em Fátima, ao lado do Santuário de Oração» vamos construir um «santuário de cultura e fé, um monumento vivo ao Anjo de Portugal, que, por isso, se chamará «Colégio de S. Miguel», colégio por ele talhado nos fundamentos do seu projecto educativo e que ele sempre amou como um filho predilecto. Nas suas muitas deslocações pelo mundo, nunca se esquecia dele, enviando-lhe encantadoras mensagens de saudação e encorajamento, sempre dirigidas a «toda a família do colégio: director, professores, alunos e demais colaboradores». E sentia-se sempre muito feliz com os bons resultados escolares dos nossos alunos e com as actividades em que estes se envolviam. Apenas um exemplo: «mil parabéns pelo 1º lugar na classificação da 1ª volta. Espero que o S. Miguel mantenha o lugar na 2ª volta, melhorando-o ainda». Referia-se aos resultados dos exames, ao nível distrital, no então Liceu Nacional de Leiria, no ano de 1970. Aquando das grandes lutas pela liberdade de ensino em Portugal, após o 25 de Abril, já resignatário, em carta ao director do colégio dizia: «Creio que posso dar-te os parabéns pela situação actual do Ensino Particular, situação jurídica por que tanto e bem te bateste…é grande passo em frente. Deus louvado e honra a quem tanto se sacrificou por esta meta». Ainda hoje o Colégio de S. Miguel vive da herança do seu fundador, consignada no projecto que o identifica e de que muito se orgulha. Em nenhum outro lugar da Diocese o Bispo D. João Venâncio está tão presente, no quotidiano da vida, como no Colégio diocesano de S. Miguel.
De outros muitos caminhos abertos pelo Bispo D. João Pereira Venâncio não faltarão testemunhos, todos eles convergindo no reconhecimento desta figura de homem, de padre e de bispo como um dom de Deus à Igreja e à Humanidade. A nós compete não os esquecer e caminhar por eles.
Padre Joaquim Ventura

Deixe uma Resposta